sábado, 31 de dezembro de 2016

Doutor Estranho: O “Matrix” da Marvel



Por Davi Paiva.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!!!


Podem reclamar o quanto quiser que a Marvel faz muito filme de origem, mas duas coisas jamais poderão ser contestadas:

1 – Ninguém é obrigado a saber as origens dos heróis. Ainda mais dos que a Marvel está produzindo filmes (a proporção de pessoas que leram HQs do Doutor Estranho é muito menor do que os que acompanharam o Homem-Aranha, por exemplo);

2 – A Marvel sabe variar o estilo indo além dos filmes de super-herói: filmes de guerra (Capitão América – O Primeiro Vingador), de espionagem (Capitão América – O Soldado Invernal), de aventuras no espaço (Guardiões da Galáxia) e até de assalto (Homem-Formiga).

Logo... por que não fazer um filme do tipo “questionador de realidade”?
A ideia de um filme do Doutor Estranho foi colocada de forma bem sutil no universo cinematográfico da Marvel quando um agente da Hydra menciona que ele é uma ameaça ao grupo no segundo filme do Capitão América. Foi tão sutil que ninguém deu bola.


Estava ali o tempo todo... e só você não viu...

Daí a Marvel anunciou no mesmo ano que produziria o filme (embora Kevin Peige, produtor cinematográfico, já tinha anunciado suas intenções um ano antes) e a contratação do ator Benedict Cumberbatch acendeu a chama da expectativa, que resistiu até mesmo às acusações de “whitewashing” pela escalação da atriz Tilda Swinton em um dos papéis (abordo isso mais a frente). Os trailers foram divulgados, Cumberbatch fez propagandas e... pronto!

Assisti ao filme no dia 02 de novembro no Frei Caneca. Infelizmente perdi os minutos iniciais do filme, chegando na sala na cena anterior à do acidente de automóvel.

O que achei? Vamos por partes...

Escolha de elenco: excelente! Cumberbatch impulsiona o filme tanto sozinho quanto em parcerias. Ao lado do ator Chiwetel “Mordo” Ejiofor, a química da nacionalidade surge (ambos são britânicos). Com Rachel “Christine Palmers” McAdams, a amizade/romance surge com sutileza. Com Benedict Wong (que ironia! Ele interpreta um personagem chamado Wong...), dois atores relativamente novos no cinema (a meu ver, interpretar Stephen Strange pode ser considerado o apogeu de Cumberbatch) se esmeram em seus papéis. Suas expressões ao encontrar Mads "Kaecilius" Mikkelsen passam a nítida impressão que os dois nunca se viram antes e a experiência fala mais alto ao atuar ao lado de Tilda “Anciã” Swinton.


Beija, beija, beija, beija...

E por falar em Tilda Swinton...

Estou ciente que o “whitewashing” não é uma coisa boa. Quando assistimos à uma adaptação de quadrinho, livro ou jogo para o cinema, queremos ver a produção fidedigna da obra em nomes, gêneros, etnias e orientações sexuais. Trocar um personagem que originalmente era um homem asiático por uma mulher inglesa é uma ideia ousada e que visa não só aumentar a quantidade de mulheres na trama como também fazer com que o filme venda (é preciso ter atores famosos para o produto vender). De qualquer forma, o que podemos nos perguntar é:

- ela representou o arquétipo do mestre?

- atuou bem, expressando as emoções de sua personagem?

- estraga o filme?

Procurem responder e terão suas conclusões.

Nota: repararam que ninguém reclamou do ator que escolheram para interpretar o Mordo?

Roteiro: para muitos, Doutor Estranho é um plágio de Homem de Ferro. E eu discordo totalmente.

Ambos eram baladeiros, sim, mas a forma como Stephen trata Christine é algo que nem o Tony Stark de mau humor faria com a Pepper.

Ambos são marcados por uma tragédia, mas enquanto o Homem de Ferro se curou na primeira oportunidade obtida (Homem de Ferro 3), Stephen abdicou da cura e aceitou um cargo elevadíssimo dentro da sociedade que ele soube existir.

Ambos são inteligentes, mas Tony é um construtor ao passo que Stephen é quase um “MacGyver” improvisando com o que encontra no meio do caminho.
Portanto... Não. Ambos são bem diferentes.

***

Agora abordando a ideia do roteiro do filme em si.

As informações foram muito bem colocadas: um homem que se curou de uma paralisia serve de mote para o protagonista conhecer o santuário, as ações de Kaecilius fazem sentido quando Wong diz “nenhum conhecimento é proibido, mas nem tudo aqui é praticado” e a afirmação que Dormammu está em uma dimensão atemporal fornecendo poderes a seus seguidores gera uma diferença tanto no fundamental no plano de Strange quanto na revelação da origem da longevidade da anciã.

E por mais que as pessoas reclamem que a Marvel não abre mão de seu roteiro com piadas, a meu ver, isso não é um problema: é uma marca registrada. E tanto um Strange que questiona se Wong não tem um sobrenome quanto um mesmo Strange se desentendo com sua capa são coisas que representam o significado do termo alívio cômico: quando a situação é tensa, você se alivia. E não é qualquer alívio. É dando risada (e até a pessoa mais triste do mundo deve gostar de rir).

Infelizmente, nem tudo são flores. E esse filme possui alguns ligeiros deslizes.

• Ficou claro que Stephen tem uma boa memória e aprendia até mesmo enquanto seu corpo dormia, mas estamos falando de magia estudada por pessoas em um monastério. Não é algo que se aprende com um supletivo. Logo, faltou um pouco mais de passagem de tempo;

• Stephen se torna responsável por um Sanctum em Nova York. Seria legal... se ele não fosse um novato!;

• Christine vê uma projeção astral do seu amigo que fala com ela e a ouve sem problemas. E apesar do susto, ela não surta?! Cadê a verossimilhança?!

Cenas de ação: Stephen pode ter treinado um pouquinho de artes marciais, mas ele é um médico e como médico, não sabe lutar. Logo, foi muito inteligente da parte dele ir usando recursos do cenário para vencer seus inimigos. E isso me agradou muito.

Vilões: por mais que as pessoas reclamem que a Marvel não sabe criar vilões que imponham medo (exceto Loki e o pouco que vimos do Thanos até agora), eu gostei tanto de Kaecilius quanto da origem das motivações de Mordo: enquanto o primeiro apresenta uma aparência repugnante (um ótimo ponto, a meu ver) mesmo sendo um mero capanga, o outro era de uma simpatia que ficou horrorizado ao ver como ele era o único a seguir as regras daquele mundo no qual viviam e decidiu que será o responsável por “restaurar o equilíbrio” tirando a magia da Terra e seus “burladores de regras”. Creio que será um vilão que dará muito trabalho tanto pela experiência com magia quanto pelos laços com Stephen.


Boto muita fé nesse cara!


***

Falar da parte que faz o filme ser “o Matrix da Marvel” é bem complicado. Ouvi vários podcasts e canais de vídeo antes de escrever este artigo procurando explicar por que o considero desta forma... mas é muito difícil.

“Doutor Estranho” é mais uma das variações da Marvel para passar a seguinte mensagem: o mundo não é o que você capta pelos seus sentidos ou o que acha que realmente é. E um mesmo lugar pode abrigar diversas realidades.

Não tenho uma reflexão assim desde que assisti ao filme das Wachowski (elas se assumiram como transgênero em março de 2016). E sou muito grato a Marvel por trazer de volta esse gostinho de questionar realidades.


Obrigado a todos(as).



Um comentário:

  1. Muito boa a sua crítica, Davi, confesso que fiquei com vontade de assistir.

    abraços, cara

    baudoarquimago.blogspot.com

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