domingo, 19 de maio de 2019

Capitã Marvel - Aquela que Não Precisa Provar Nada para Ninguém


Por Davi Paiva

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!!!


Falar da Capitã Marvel é difícil para mim. Primeiro porque não lembro de ter lido nada dela, tanto individualmente quanto em sagas envolvendo os super-heróis da Marvel (ela não estava presente nas Guerras Secretas, Guerra Civil ou a trilogia do Infinito, por exemplo). Segundo porque ela nem sempre foi bem tratada nos quadrinhos. De vítima de abuso ao fato de dar poderes para a Vampira, dos X-Men, seus arcos mais elaborados, até onde sei, são os mais recentes ou com a Kamala Kan. E terceiro, porque alguns nerds conservadores ainda a consideram uma sombra do Capitão Marvel.

Com tudo isso, como adaptar a personagem para o cinema e dar ao público as noções que ela é não só a última esperança do universo contra o Thanos como também a mais poderosa do MCU?

Não é nada fácil.

As divulgações de informações do filme foram bem graduais. Saber que o filme dela se passaria nos anos 90... sua primeira foto uniformizada ainda que fora das cores oficiais e o uniforme oficial deram o que falar da parte dos nerds conservadores. De atriz "sem bunda" a filme lacrador da Marvel, a atriz principal e a equipe de produção experimentaram o que a Mulher Maravilha passou antes, durante e depois do lançamento do seu filme.

O lançamento do trailer também gerou grandes repercussões e o começo das afirmações que a atriz não era carismática ou não sorria. Foi preciso um pouco de jogo de cintura da atriz principal, Brie Larson, para lidar com tudo isso.

No fim, o filme foi lançado na semana do Dia Internacional da Mulher e se manteve nas lideranças da bilheteria por muito tempo, ainda que a sua nota no Rotten Tomatoes variasse um pouco e fugisse do esperado dos filmes da Marvel (detalhe: as críticas lançadas antes do filme ser lançado fizeram os responsáveis pelo RT mudarem as configurações para os filmes só terem notas divulgadas depois de seus lançamentos).

Vi o filme no bom e velho cinema da PlayArte no Shopping Center 3.

O resultado? Vejamos...

Elenco: não vejo tantas reclamações em cima de um ator desde a escolha do Ben Affleck para interpretar o Batman!

Brie Larson foi uma boa escolha. Tinha que interpretar uma militar que teve de lutar para alcançar o seu cargo e mais para frente, uma Kree treinada para reprimir os seus sentimentos. Por isso, nada de sorrisinhos sedutores ou ficar bancando a babá de machos. Deixem isso, respectivamente, para a Viúva Negra e a Gamora...


“Ain, a Brie Larson não tem carisma” é a nova desculpa esfarrapada dos nerds conservadores para dizer que ela não sorri.


Além disso, tivemos surpresas como Jude Law fazendo o papel de mentor e vilão mais frente, Lashanna Lynch interpretando a melhor amiga de Carol Danvers, Monica Rambeau, e Akira Akbar sendo bem carismática como filha da amiga de Carol.

Contudo, creio que nada disso foi mais surpreendente do que ver Samuel L Jackson interpretando um Nick Fury rejuvenescido digitalmente. Eu mesmo só notei depois de ouvir uns podcasts sobre isso.

Roteiro: sendo a Capitã Marvel a maior esperança do universo e a mais poderosa, era de se esperar que ela tivesse a origem de seus poderes em algo espetacular e demonstrasse capacidades quase divinas. No entanto, tudo isso é apresentado no filme de uma forma sutil.

Carol Danvers era uma piloto comum na força aérea dos EUA até ser atingida pela energia de um motor com energia derivada do famoso Tesseract, também conhecido como Joia do Infinito do Espaço. Teoricamente essa é a joia mais fraca e seria melhor se usassem as Joias do Poder, Realidade ou Alma? Sim.

Todavia, vale lembrar que a Feiticeira Escarlate e o Mercúrio tiveram seus poderes gerados por experiências com a Joia da... Mente. Confuso, não acham?

Com amnésia e com poderes de luz (o que lhe garante rajadas de energia, voo, emissão de calor e uma incrível resistência), Carol é levada pelos Krees para ser tratada como uma ferramenta. Tem um implante para diminuir os seus poderes, recebe sangue de seu tutor e é treinada na arte do combate e na técnica de repressão de sentimentos. O que reforça a atuação da atriz em dar vida a uma personagem de poucos sorrisos.

Achei a cena de combate na nave Skrull, onde foi levada depois de uma emboscada, muito boa. Com as mãos presas, Carol tem as suas rajadas de energia bloqueadas até decidir usar o método "ou vai ou racha" e concentra tanta energia em um disparo que explode os bloqueadores e ataca com tudo.

O filme ganha novos ares com a chegada de Carol na Terra dos anos 90. Locadoras, Blockbuster, fitas de vídeo, cartaz do filme "True Lies"... sério. Me senti em casa vendo tudo aquilo, já que nasci em 1987 e sou bem saudosista com os anos 90.

E a coisa fica ainda melhor com a chegada de Nick Fury e Coulson. Não percebi que o Samuel L Jackson estava rejuvenescido digitalmente até pesquisar. Sério. Achei que era só maquiagem e iluminação...


Nick Fury rejuvenescido?! Marvel, que bruxaria é essa?


Depois o filme tem de tudo: ação com a cena do trem amplamente divulgada nos trailers, perseguição, investigação e desenvolvimento dos personagens, bem como a química entre Carol e Fury. Fiquei muito feliz em ver uma obra onde um homem e uma mulher não precisam virar par romântico...

E para não ficar algo tão duro, temos uma boa suavizada com a entrada da amiga de Carol, bem como a sua filha. Nem todo nerd conservador sabe como é legal ver que a primeira cena de uma mulher negra e mãe solteira é dela mesma consertando um avião.

Após mais revelações sobre os objetivos dos Skrulls e as intenções dos Krees, a trama tem uma boa mudança de ares passando a mexer com viagem no espaço. E é claro, tudo impressiona nesta parte: da revelação de quem é o gato que acompanha os heróis à grande cena de empoderamento feminino (se até eu que sou homem fiquei emocionado... que dirá o público feminino!) que culmina em uma "porradaria" ao som de "Just a Girl". Só a Marvel para me fazer ouvir e gostar de "No Doubt"...

A qualidade das cenas de ação e a demonstração de força feminina não caem. A Capitã destrói ogivas, naves e se recusa a lutar contra seu mentor com a melhor frase do filme: "não preciso provar nada para você."

E temos um final onde entendemos que Carol Danvers atingiu uma grandeza: sabe quem é, do que é capaz e o que fazer por quem mereça.

Cenas de ação: escura demais em algumas cenas e com muitos cortes em outras. Sinal que a direção não quis acreditar na capacidade da atriz principal, que realizou suas cenas sem dublês na maioria das vezes. Uma pena.

Trilha sonora: bandas de rock dos anos 90 com vocalistas femininas? Marvel, sua linda!

Tributos ao Stan Lee: sem sombra de dúvidas, este é o filme que melhor presta homenagens ao nosso bom velhinho. Foi uma grande surpresa para mim ver a introdução da Marvel em versão especial, bem como sua pequena participação com direito a ganhar um sorriso simpático da Carol.

Importância da produção do filme no MCU e para o público feminino: a Capitã Marvel é tão poderosa em diversos aspectos (lutadora exímia, enfrenta adversários voadores, ataca de longe, super resistente, etc.) que pode desequilibrar qualquer batalha. Dar inimigos a ela será um grande desafio aos produtores dos próximos filmes onde ela possa aparecer. Sem falar que, dado o seu espírito de liderança, já temos uma potencial comandante nas novas formações dos Vingadores.

E sobre o quão importante ela foi para o público feminino... Estou ciente que esse não é o meu lugar de fala e que nem toda mulher precisa de uma atriz branca, ocidental e sarada para representá-la. Todavia, acompanhei durante todo o período que o filme esteve em cartaz a sua repercussão. Se por um lado tivemos nerds conservadores reclamando da falta de sorrisos ou até da falta de bunda da atriz, por outro eu vi amigas comemorando o lançamento do filme, comprando camisetas, procurando HQs e falando o que pensam da obra. Ódio gerando caçadores e felicidade gerando fãs. A mesma coisa que ocorreu quando o filme do Pantera Negra foi exibido. Infelizmente, o mundo tem dessas. E o mundo nerd também não é exceção.

Ainda assim, quero encerrar este artigo lembrando a cena que mais me marcou no filme, que foi quando Carol lembrou de todas as vezes que caiu... e se reergueu.

Aviso aos nerds conservadores: podem tentar derrubar quem vocês quiserem. Fãs do Pantera Negra, da Capitã Marvel e de outros filmes que vocês vão taxar de "cota" ou "lacração." Ninguém precisa provar nada para vocês. E caso queiram provar, preparem-se para levar porrada. Muita porrada.

Obrigado a todos(as).