domingo, 16 de abril de 2017

Antologia Valquírias – Resenha + Entrevista



Por Davi Paiva

           “Eu não posso organizar isso”.

           Foi assim que tudo começou.

           Um dia resolvi pesquisar temas pouco explorados para antologias de contos e percebi que poucas editoras criam concursos voltados para somente para escritoras mesclando iniciantes e veteranas. E menor ainda é a quantidade de concursos organizados por mulheres.

           Constatado o fato, pensei que uma antologia somente com mulheres seria uma boa sacada.

           Infelizmente (e mais tarde, se revelou “felizmente”), vi que não podia organizar um concurso desses. Sou homem e por mais que eu faça uma jornada cavalar de leitura com obras de escritoras ou com protagonistas femininas, jamais faria uma conexão com o universo feminino tal qual uma escritora faz naturalmente.

           Assumindo a “derrota”, resolvi bancar o Hermes e levar a ideia ao editor da Darda, João “Jota” Paulo Cabral Teixeira, de termos uma antologia somente com escritoras e organizada por... Fernanda Castro!

           Para quem não sabe, Fernanda Castro é a autora do blog Bookworm Scientist, onde ela fala de resenha de livros, conta experiências  e dá excelentes dicas de técnicas de escrita . Eu até já fui entrevistado por ela uma vez...
           
  
           Fernanda Castro

Por sorte, o Jota e a Fernanda gostaram do projeto. E quando o expus ao meu extinto grupo de estudos para criação da minha primeira antologia, Poderes, tive sorte de ter atraído a atenção de mais uma lenda viva... Marcia Dantas!

           Para quem não a conhece, a Marcia é uma escritora experiente e versátil, que organizou a antologia “Ridículas Cartas de Amor” e escreveu um livro solo, “Reescrevendo Sonhos”.



Marcia Dantas

A Marcia assumiu que não só tinha interesse em participar do projeto como já havia pensado na possibilidade de organiza-lo.

           “Onde uma organiza, duas também organizam”, pensei.

           Daí foi mais fácil: falei para Fernanda se ela topava dividir a organização com a Marcia e deixei todo o processo burocrático com o Jota.

           O resultado não podia ser melhor.

           A antologia “Valquírias” conta com duas organizadoras incríveis que não só comandaram o projeto como também contribuíram com textos excelentes (o da Marcia é o meu preferido), além de mais 18 escritoras que fizeram trabalhos interessantes.

           O blog Detonerds teve a oportunidade de entrevistar as organizadoras e coautoras, além da Fernanda Mothé, coordenadora do selo CDE (Coletâneas Darda Editora) para saber como eles se sentem após alcançar um objetivo tão espetacular e interessante de inclusão.

DN: vamos começar falando sobre as suas vidas no mundo da leitura: você leem muito? Desde que idade? Tiveram apoio familiar, de amigos ou de professores? Vocês têm autores(as) preferidos ou obras prediletas? Quais?

Fernanda C.: Comecei a ler muito cedo, ensinada por minha mãe antes mesmo de entrar na escola. A família foi um fator chave: sempre tive oportunidade e incentivo para ler, e lia praticamente de tudo. Essa de autor predileto é sempre uma pergunta ingrata, né? Eu tenho queridinhos de infância, obras que me acompanharam e me formaram como pessoa, e autores que li mais madura, que admiro pela técnica. Ando numa fase muito Neil Gaiman e Brandon Sanderson, mas vou me abster de escolher favoritos, hahaha.

Marcia: Lembro-me de ler desde muito cedo, muito embora meus pais não sejam leitores. Comecei a escolher minhas leituras com doze anos de idade, quando me deparei com uma biblioteca sortida na escola, acessível para mim. Ter esse acesso e o incentivo na escola, que sempre trabalhava com incentivo à leitura, fez com que eu me aproximasse desse maravilhoso mundo. Com relação a favoritos, não consigo fazer uma lista. Mas algo que sempre recomendo é Farenheint 451 de Ray Bradbury. Mais perto de literatura contemporânea, encontro inclinação nos livros de Chimamanda Ngozi Adichie.

DN: agora vamos falar sobre as suas formações como escritoras: quais obras leram que as ajudaram a escrever tão bem, quais cursos ou oficinas fizeram e quem foram seus grandes professores para chegarem até aqui.

Fernanda C.: Confesso não ter o costume de ler livros técnicos. Prefiro acompanhar sites de qualidade sobre escrita, oficinas e cursos de autores que admiro e outros materiais online. Também aprendo muito enquanto leio (aposto alto nesse tipo de conhecimento mais “intuitivo” que se ganha com a leitura constante). Gosto de analisar o que determinado autor usou, como usou e porque aquele artifício deu certo na narrativa.

           Marcia: O contato com livros técnicos para mim é recente. Na minha formação profissional procurei muito por artigos na internet e vídeos de sites como o Homo Literatus. Em 2015 tive a oportunidade de fazer uma oficina incrível com a Clara Averbuck.


DN: Fernanda C., Marcia e Fernanda M., vocês ainda lembram como se sentiram quando apresentei o projeto a vocês? Sentiram frio na barriga ou já viram logo de cara que era algo com potencial?

Fernanda C.: Abracei a ideia logo de cara porque era algo que eu queria fazer, que eu sentia necessidade de ver em modo concreto. Na época eu estava tendo muito contato com autores independentes em início de carreira, e me divertia e aprendia muito trocando experiências com eles. Sabemos que o clima do mercado é de concorrência, então senti que era importante prover um local seguro para fomentar não concorrência, e sim colaboração.

Marcia: Acho que a melhor coisa sobre conhecer a Fernanda foi a forma como a gente tinha a mesma inclinação e a mesma vontade. Havia uma necessidade na literatura brasileira, e nós estávamos ávidas por atendê-la.

Fernanda M: Desde que assumi a coordenação do selo CDE, tenho me deparado com extrema boa vontade dos interessados em organizar, bem como tenho – e seguirei – cedendo todo meu empenho e interesse em auxiliar quaisquer questões. Até foi cogitado com a Marcia e a Fernanda a sucessão do Valquírias, ou seja, o espaço e a indicação foram tão bem-vindos que rendeu espaço para a continuação do projeto delas, levado com muita seriedade e esforço, além de carinho, por elas também. O João Paulo recebeu com entusiasmo, e teve a sapiência de transmiti-lo a mim, e o resultado é o livro.

           DN: a ideia que dei era só de uma antologia organizada e produzida por mulheres. Se bem me lembro, foi ideia da Fernanda C. que ela fosse fantástica. Fernanda M. e Marcia, vocês tiveram dificuldades em se adaptar ao conceito? E você, Fernanda, tomou a decisão facilmente ou precisou calcular bem os riscos?

           Fernanda C.: Bem, eu não me sentiria confortável de trabalhar com outro gênero. Organizar uma antologia é uma responsabilidade muito grande, ainda mais no nosso caso, em que a ideia era ajudar as autoras desde cedo com a produção de seus contos, algo que ia desde o brainstorming até as edições finais. Então eu teria de ter bagagem o suficiente para conduzi-las com competência. Nascida e criada no mundo da ficção fantástica, achei que foi a opção mais segura.

           Marcia: Para mim não foi nenhum trabalho na questão de embarcar na jornada pois, por mais que não tivesse me aventurado em escrever fantasia, sempre foi um gênero muito querido. Claro que me entreguei ao conhecimento da Fernanda, que é imenso, e isso foi muito enriquecedor, pois aprendi muito com ela.

           Fernanda M.: Posso falar por mim e por nosso editor-chefe que sentíamos necessidade de um projeto só para mulheres. Por experiência, não houve a mínima dificuldade: ao contrário, foi tudo levado com tranquilidade.

DN: contem-nos um pouco sobre a produção do livro: quanto tempo levaram? Tiveram alguém que as auxiliassem, além da editora? Foi difícil explicar às autoras a ideia da antologia? Lembram se houve muitas reescritas dos textos?

           Fernanda C.: Nossa, acho que foram um ano e alguns meses desde a ideia de criar a antologia até o livro ser impresso e comercializado. A adesão das autoras foi tranquila, todas entenderam rapidamente qual nosso objetivo enquanto projeto de escrita. Creio que nosso maior desafio foi trabalhar a temática dos textos mesmo: para muitas, foi a primeira experiência com ficção fantástica, e fantasia é um gênero que não tem limites muito bem definidos. Como acompanhamos os textos desde o início, foram poucas as reescritas completas, mas tivemos dezenas de alterações.

           Marcia: Como a Fernanda disse, a adesão das autoras foi muito fácil e, muito embora elas tenham ficado hesitantes diante de seus próprios textos e de atender a proposta, bastou que a gente se propusesse a ler e analisar para que tudo fluísse muito bem. Foi um processo longo, porém delicioso e de muito aprendizado.


           DN: alguns contos pareciam remeter a algumas narrativas populares, como animes ou mitologia grega. O que acham disso?

           Fernanda C.: A fantasia alimenta-se do imaginário popular, das nossas crenças culturais. Então acho bastante normal que os textos puxem para temáticas conhecidas. Se a gente for ver, o Senhor dos Anéis é uma apropriação das lendas e textos nórdicos. Acho que o importante é a abordagem utilizada, a centelha de inovação.

           Marcia: Acho que a variedade dos contos apenas enriquece a experiência. Gosto sempre dessas surpresas em antologias, e em como as leituras podem ser variadas.

           DN: notei que alguns contos usam a figura masculina como vilã. Vocês acham que isso é uma reação aos séculos de personagens femininas como vilãs (bruxa, madrasta, sedutora, etc.) ou acham que algum pode considerar que ocorre misandria na escolha do gênero do vilão?

Fernanda C.: Acho que foi uma reação inconsciente das autoras. Como a antologia prezou pelo protagonismo feminino, evitamos colocar mulheres em confronto, no papel de heroína/vilã, ainda mais por causa de todos os estereótipos associados. 

           Marcia: Eu acrescentaria que isso revela um pouco de como as mulheres se sentem numa sociedade patriarcal. Muito embora haja essa insistência cultural em dizer que os homens nos protegem, a verdade é que o nosso dia-a-dia revela que nos sentimos intimidadas pelas figuras masculinas.

           DN: durante o processo de criação da antologia, ocorreu algum fato curioso que queiram compartilhar?

Fernanda C.: Uma coisa que me marcou muito (tenho certeza de que a Marcia também vai tocar nesse ponto), foi o nosso gigantesco debate sobre o que é e o que não é clichê, quais os momentos em que é benéfico utilizá-los e também sobre o quanto nós, enquanto organizadoras, podemos interferir no processo de escrita das participantes. É importante saber o limiar entre correções técnicas e a liberdade de estilo de cada uma. Foram debates muito bons, aprendemos demais com as meninas.

           Marcia: Pegando carona no que a Fernanda disse, acho que foi muito bom repensar a questão dos clichês. Além disso, refletimos bastantes sobre as questões do mercado literário brasileiro e até que ponto, como organizadoras, podemos interferir no processo criativo de quem escreve.

           Fernanda M.: Curioso, não. Mas quero ressaltar a rapidez, casando perfeitamente com nosso modo de ser, de ambas as organizadoras.

DN: como foi a reação de parentes e amigos quando lançaram? Houve críticas positivas e/ou negativas? Outras pessoas que nem conheciam entravam em contato com vocês para dizerem o que acharam?

           Fernanda C.: Ah, família é família, né? Hahaha. Recebemos muitos elogios e também algumas críticas, que também são importantes. Achei divertido porque tive a oportunidade de conversar com diversos leitores do blog que não comentavam os posts, mas que entraram em contato para adquirir o livro. É muito gratificante saber que tem gente lá de olho no seu trabalho.

           Marcia: Minha família sempre apóia e incentiva, então foi bom ter essa companhia mais uma vez. Com relação às outras pessoas, foi bem legal ver que fantasia escrita e protagonizada por mulheres chama a atenção. Inclusive, antes que entrássemos em contato com a Aline Valek, que escreveu nosso prefácio, ela divulgou nosso projeto no Twitter. Foi isso que fez com que a gente tomasse a coragem de convidá-la <3

DN: O que mudou de lá para cá?

           Fernanda C.: Mais trabalho, mais trabalho, mais trabalho, haha.

           Marcia: A cada projeto me sinto mais autônoma e segura de que estou no lugar certo e no caminho adequado. Aliás, ser a pessoa que ajudou a Fernanda depois de ter penado tanto em minha primeira antologia, Ridículas Cartas de Amor, fez com que eu percebesse como aprendi nesses quatro anos de profissionalização na escrita.

           DN: acham que o mercado literário é machista? Por quê? E o que pode ser feito para mudar esse panorama?

Fernanda C.: Acho que o mercado é sexista em seus diversos gêneros. Por exemplo, a seção de romances de época é dominada pelas mulheres, enquanto os homens são maioria absoluta na ficção científica. Criamos estereótipos sobre quem deve criar e quem deve consumir determinado tipo de história. Para que essa situação mude, é preciso derrubá-los.

           Marcia: Sim, com toda a certeza o mercado literário é machista. Ainda hoje temos mulheres sendo silenciadas em palestras, narizes torcidos para obras escritas por mulheres e estereótipos sendo multiplicados. Temos escritoras incríveis que não estão no mercado por baixa autoestima, porque ouviram a vida inteira que isso não era para elas.
Mais do que isso, o mercado é segregacionista. Não aceita o diferente, o diverso. É difícil escrever sendo mulher, sendo uma pessoa negra, de periferia, que saia do padrão heterossexual, que venda outros corpos, e por aí vai. Mas aos poucos vemos pessoas rompendo essas limitações.
Acredito que o que podemos fazer é falar dessas obras e dessas pessoas que saem do padrão. Propagar, divulgar, colocar nos holofotes. Tem aí o Leia Mulheres que fala direto de literatura feita por mulheres há dois anos. Podemos colocar outros projetos por aí. Afinal, somos nós que consumimos.

DN: quais são seus próximos passos no ramo da literatura?

           Fernanda C.: Estou enrolada com alguns projetos, mas não posso entrar muito em detalhes. No mais, meu foco está totalmente voltado para o The Bookworm Scientist.

           Marcia: Acabei de terminar uma noveleta, que vai para a leitura crítica. E também vou embarcar na maratona do Camp NaNoWriMo para concluir meu primeiro livro de contos. Enquanto isso, sigo falando de Valquírias, Ridículas Cartas de Amor e Reescrevendo Sonhos.

DN: muito obrigado participação. Gostariam de deixar alguma dica e/ou conselho para quem estiver lendo essa entrevista e queira um dia participar ou organizar uma antologia, ou quem sabe até publicar um livro solo?

           Fernanda C.: Parafraseando meu amigo Bilbo Bolseiro: vai dar mais trabalho do que o dobro da metade de vocês pensa, mas vai ser mais gratificante do que o triplo do que se costuma dizer. Uma dica importante é tentar ser o mais transparente possível com quem está participando, e também buscar colaboração dentro do projeto.

           Marcia: Minha palavra-chave é insistência. Escrever é só começo e publicar não é o fim. São muitos obstáculos e o trabalho é contínuo. Por isso é necessário insistir sempre.

           Fernanda M.: A Darda faz todo processo de edição internamente, sem terceirizar nada, o que agiliza em muito todo o processo de publicação ao que tange nossa parte. Sobre especificamente uma dica para futuros organizadores, é que nos consultem, que teremos o máximo empenho – e boa vontade – para publicar o projeto, e isso vale para os livros solo. Convidamos os leitores  a sempre que possível acessarem nosso site para conhecer os projetos em aberto: aqui 

           Raio X da obra
           Livro: Antologia “Valquírias”.
           Quantidade de contos: 20.
           Quantidade de páginas: 132.
           Link do Skoob: aqui
           Onde comprar: aqui 

           Raio X das organizadoras

            Nome: Fernanda Castro
            Data de nascimento: 11/10/1991
            Local de nascimento: Rio de Janeiro
            Onde vive atualmente: Pernambuco
            Um ídolo: Neil Gaiman
            Um livro: Trilogia Fronteiras do Universo
            Um filme: Orgulho e Preconceito
            Uma música: Dirty Paws – Of Monsters and Men
            Uma frase: “Por que não continuei vendendo bananas, meu Deus?” – essa só quem acompanha a newsletter do blog vai entender... xD
            Um sonho: Conseguir pagar 100% das contas apenas com a escrita.
            Uma qualidade: Paciência
            Um defeito: Paciência demais. Brincadeira, procrastinação.

            Nome: Marcia Dantas dos Santos
            Data de nascimento: 14/10/1986
            Local de nascimento: São Paulo
            Onde vive atualmente: São Paulo
            Um ídolo: Rick Riordan
            Um livro: Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon
            Um filme: Dirty Dancing
            Uma música: Words Darker Then Their Wings – Alter Bridge
            Uma frase: “Veni, vidi,vici
            Um sonho: Se eu pagar 50% das contas com a escrita já estarei bem feliz hahahah
            Uma qualidade: Paixão pelo que eu faço.
            Um defeito: Falta de confiança em mim mesma.



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